O dia 20 de setembro um forte temporal de chuva e vento pegou de lado e tombou o barco da Pastoral Fluvial, que estava varado na praia de Curralinho, durante o Festival de Praia de Costa Marques.
Ninguém estava no interior do "Dom Roberto" e graças a Deus ninguém se feriu. Não foi difícil ergue-lo de novo naquele lugar, quase raso, porém as autoridades da Marinha de Guajará Mirim, que estávam fiscalizando o evento, apreenderam o barco e exigiram em praço de noventa dias apresentação de "laudo técnico quanto a estabilidadse da embarcação".
O único engenheiro técnico naval habilitado de Rondônia é o senhor Eleazar Ramos Gálvez, de Porto Velho, que pediu 1.500,00 $R para realizar o laudo técnico exigido pela Marinha e dictaminou a necessidade de reformar o barco, desmachando todas as cabinas do segundo andar, a exeção da cabina de pilotagem, autorizando em contrapartida a fechar o andar inferior.
O construtor do barco, Jeová Marcolino da Silva, está realizando esta reforma, para a qual foi necessário compra de chapa galvanizada, madeira, tinta e materiais diversos, com elevado custo para a Pastoral Fluvial. Estes custos estão sendo calculados na faixa de 5.630,00 $R.
Estamos confiantes que o barco possa estar funcionando e liberado para as celebrações natalinas nas comunidades do Rio Guaporé. O prejuiço econômico será grande, porém esperamos que esta reforma aumente as condições de segurança na navegação, a fim de que no trabalho missionário da Pastoral Fluvial ninguém venha a sofrer nenhum acidente.
Daqui fazemos um chamado a quem quiser ajudar contribuindo nas despesas, entrando em contato com a diocese de Guajará Mirim a través deste blog ou do site: www.dgm.org.br. Obrigados. Pe. Josep Iborra.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Reforma do barco Dom Roberto
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Briga de igrejas na área Indígena Rio Branco
Três igrejas pentecostais estão brigando por conseguir adeptos entre os indígenas da Área Indígena Rio Branco, de Rondônia. Além dum pastor indígena do povo terena, que alguns anos atrás construiu sua primeira igreja na aldéia de São Luiz do Rio Branco, agora um indígena tupari deixou o seu emprego como piloto de voadeira da Funasa para se formar como pastor fora de sua região de origem.
Enquanto outros resistem a demonização de seus costumes, como a bebida da chicha e a celebração de festas tradicionais, com danças e cantos. E se declarando católicos: "Eu sou católico desde criança e não largo a minha religião" alguns fazem qüestão de declarar.
A Virgínia e alguns companheiros do CIMI e da Pastoral Indigenista de Ji Paraná, faz muito anos que visitam a área indígena e acompanham a vida deste povo. Eles fazem um bom trabalho animando a organização dos indígenas e lhes ajudando a cobrar políticas públicas das autoridades. Porém agora eles nem querem saber de religião em meio desta briga. "Só falta nós os católicos também contruir capela e fazer batizos", falam para mim.
Pois por minha parte faz anos que me pedem para ir lá no dia 04 de outubro. No meio da assembléia do CIMI em Porto Velho os indígenas do Rio Branco me ligavam perguntando se já estava indo lá para fazer batizados.
Esta é a primeira vez que consigo no dia que els tem constume festejar. Vamos por terra, emprestando o Toyota dos cooperadores de São Miguel e carregando barraquinha, fogão e o motor de rabeta de Costa Marques. Me acompanha o Murilo, da CPT de Uberlândia, e o Víctor Cojubim para pilotar o bote no rio, que o pessoal do Rio Branco vai emprestar para nós.
Seu Anderé e Dona Juracy Macurap tem costume de matar um boi e celebrar todo ano a Festa de São Francisco na sua casa de Barranco Alto, convidando o seu compadre, Seu Tonico e outros amigos brancos, da Comunidade de Nossa Senhora Aparecida e de Santana do Guaporé, do município de São Miguel do Guaporé. Eles moram vizinhos a área indígena e andam três horas pela mata para chegar até a aldéia, ou dão um grande rodéio por Nova Brasilândia atravessando sua moto pelo Rio Branco num bote de remos. O ano passado veio algumas irmâs de São Miguel. Depois da festa algumas famílias indígenas retornam o convite participando o dia 12 de Outubre da Festa da Padroeira da comunidade católica na Linha 109 de São Miguel do Guaporé. Outros como o Rui e o Fernando Canoé fazem qüestão de mantér em pé o cruzeiro que Dom Rey, primeiro prelado da Diocese de Guajará Mirim, ergueu a beira do Rio Branco, lá pelo ano 1936. Foi o Rui Canoé quem me pediu de visitar a Àrea Indígena do Rio Branco. Ele estava visitando sua mãe na aldéia de Ricardo Franco, na AI do Guaporé, quando passei visitando a comunidade. "Lá no Rio Branco não vem nenhum padre, depois que o Pe. Paulo Verdier foi embora". Sempre com muita dificuldade de subir de barco pela boca do Branco, consegui chegar ao Palhal e até a aldéia do Colorado. Em todos os lugares fui muito bem recebido por todo o mundo pedindo de voltar outras vezes para batizar as crianças e celebrar missa. Tinham sobrado umas placas solares de Ricardo Franco, e eles aceitaram alegres de recebe-las.
Quando consegui a primeira vez chegar até São Luiz o Rui Canoé me contou que ele era devoto do Divino, a grande devoção do Rio Guaporé. "Aqui todo ano matamos um boi o dia da Festa do Divino". Diz que quando veio o pastor crente ele ajudou a construir a igreja e que um dia contou para o pastor: "Minha mãe estava doente de uma perna e não conseguia sarar. Fizemos uma promesa ao Divino e ela curou. Depois quando viemos morar aqui em São Luiz, o nosso gado não parava de morrer ervado ou por outros motivos. Fizemosa promesa de oferecer todo ano um boi para a Festa do Divino e o problema como o gado acabou." O pastor lhe respondeu: "O demônio as vezes faz coisas erradas para confundir a gente". O Rui diz para mim: "Eu sou católico. Eu não fui mais na igreja crente. Quero que o senhor me arrume uma Bandeira do Divino para continuar festejando o seu dia". O ano passado levei a Bandeira que a Irmandade cedeu para eles do cofre do Divino.
Quando comecei a fazer rezas na Área Indígena, eu dizia para eles que católico não quer tirar nenhuma cultura indígena, que quando o povo morava nas malocas, antes de conhecer a Bílblia e qualquer tipo de escrita, o Espíritu Santo de Deus já tinha espalhado sua luz e sabedoria nos seus antecessores para que vivessem e vivessem muito bem. Por isso eles tinham que ter muito respeito pelas histórias que contam os mais velhos, pois elas foram inspiradas também por Deus pra aseu pais e avôs. Para eles são verdadeira Palavra de Deus.
Uma vez contei para o professor de Colorado, um dos poucos que já começou a escrever na língua tupari, que a Bíblia, antes de ser escrita, também era somente contada nas histórias que os mais velhos aprendiam e contavam para os seus netos. Somente depois começou a ser escrita. "Então, as histórias que nós conhecemos são a nossa Bíblia", ele disse, brilhando os olhos. Isso mesmo, confirmei: "São a Bíblia de vocês". Depois eu tenho repetido isso muitas vezes.
Por isso nas celebrações, no começo, eu levava um livro da Betti Midlin com lendas recolhidas dos povos macurap, tupari e jabuti. Eu animava no começo da celebração a contar alguma história indígena, ou pedia para ler alguma das histórias. Eu tinha visto fazer isso aos meus companheiros claretianos do Panamá, que faz décadas trabalham com o Povo Puna, em ilhas do Oceano Atlântico. Aos poucos, alguém se animava a contar alguma história.
Desta vez o fizeram seu Anderé e dona Juracy Macurap, na celebração do dia 04 de Outubro. Eles nos contam a história duma personagem mítica, o criador da origem do povo macurap, que eles identificam com Jesus, e duma mulher, irmâ do primeiro, que identificam com a Virgem Maria. Seu Tonico e os amigos católicos jamais tinham ouvido contar histórias assim. Por nossa parte, nós puxamos parte do terço e lemos a oração de São Francisco que tinha trazido Seu Tonico e cantamos diversos cantos de igreja, antes do almoço festivo.
Já em Jatobá, nos espera o Luiz para batizar o seu filho caçula. O Luiz é piloto da voadeira da saúde e é filho de pai branco e mãe indígena. Como padrinhos tinha escolhido um jovem casal de Alta Floresta, que trabalha na Funasa. Eles queriam ser compadres. O batismno de crianças é uma clara ocasião de fazer aliança, de selar uma amizade. O compadrio é uma instituição que cria parentesco e compromisso de mútuo apóio. O Luiz conta: "Alguns crentes já me tem chamado de 'demôniozinho', brincando comigo, pois eu não abro mão de minha costume de preparar e beber chicha nas festas. Eu não aceito isso. Eu sou católico e exijo respeito para com nossas costumes". Celebramos o batismo na casa de chicha. Depois do batismo continua uma festa dançante animada pela música de som do carro dos padrinhos, com presença de muitos vizinhos.
Lá mesmo achamos o Dario. Sua sogra, Dona Entelvina, é uma das anciãs do povo tupari, que lembra dos cantos, danças e histórias tradicionais. "Dona Etelvina já está lhe esperando para contar algumas histórias", me diz o Dario. Ele se adianta na viagem. Nós somente conseguimos chegar no Palhal depois de dois dias de viagem de rabeta. Dona Etelvina já estava preparada para contar sua história: "As crianças já não querem me ouvir", reclama dos jovens i crianças do Palhal. Porém na celebração eles escutam a história do homem que anunciou para sua mulher e família que iria morrer, porém que cinco dias depois ele iria voltar vivo. Quando morre, os seus não acreditam no seu retorno, e sem atender seus desejos, choram e fazem luto por ele. Quando ele volta, cinco dias depois, ninguém está esperando por ele e não é bem recebido. Chateado, acaba indo embora para sempre. A história tem paralelismo claro com o anuncio da ressurreição de Cristo ao tercer dia, porém o resultado é bem diferente. Eu tinha arriscado rezar uma missa e explico com dificuldade o sentido do pão e do vinho da eucaristia, deixados por memorial do corpo e sangue de Jesus antes de sua morte. Lemos a leitura do evangelho dia da Aparecida: o milagre das bodas de Canáa. "O que acham, Jesus se morasse aqui iria gostar de chicha?" Todos acham que sim. Assim, o Misterio da Vida e da Morte se encontram para partilhar a nossa realidade humana e mortal a luz da fé e da revelação.
O Dario ja pediu em fevereiro ajuda para construir uma capela católica no Palhal, e me repassou uma lista do material que seria necessário para construir uma capela de madeira serrada e telhado de palha. Porém eu tinha perdido a lista. Ele faz outra nova que não esquece de me entregar.
Além disso, paro em outras comunidades, como em Encrenca, Serrinha, Cajuí, Colorado. Ninguém fala em reza e eu fico quieto. O pessoal da associação indígena agradece a ajuda que o barco da Pastoral Fluvial deu para traslhadar um gado, quando não tinham nenhuma chata para o serviço. Eles pedem para lhes ajudar a conseguir e instalar um motor de centro numa chata de 3x10 m. que tem construído em Versalhes e que na próxima semana querem subir para o Branco.
A guerra de religiões está virando uma guerra de favores. Quem batiza na igreja crente consegue carona do pastor para ir até Alta Floresta comprar rancho. Quem desvia da igreja não vai mais. Eu comecei instalando placas solares e para mim alguns pedem lâmpadas ou uma placa solar, pois as que instalamos não deram para todo o mundo. Eu liguei para os responsãveis do programa Luz para Todos e confirmaram para mim, antes da viagem, que a construão da linha de energia para São Luiz já está em "fase de excução". A linha chega até depois do distrito de Geaze, a uns trinta quilômetros de São Luiz. Em realidade não achamos no caminho ninguém trabalhando nela, nem vemos postes, nem material, nada. "Uma empresa começou a furar os buracos dos postes, porém desistiu". Contam os indígenas.
A metade de caminho de Alta Floresta uma represa do Grupo Cassol está acabando de ser construída, contra a vontade deles, inclusive destruindo um antigo cemitério do povo Jabuti. E eles continuam sem energia. Querem as placas solares, porque não confiam que a energia das PCH chegue para eles. "O pastor conseguiu para mim a bateria", confessa um morador de Encrenca.
Um numeroso grupo está subindo num bote para assistir a um congresso da igreja em Pimenta Bueno. Em Jatobá, onde começa a estrada de chão, nós deixamos o Toyota. Eles chegamn para pegar o caminhão que os levará. O pastor deixou para eles motor, gasolina e diesel para a viagem. Muitas mulheres esperam vender artesanato lá em Pimenta Bueno.
Fico me perguntando como nós temos que dançar nesta dança. Já em São Luiz outra liderança da aldéia Bom Jesus para o carro, para pedir também placas solares: "A bateria, a gente da um jeito". Com algum pastor, seguramente.
MPF faz reuniões com quilombolas de Rondônia

Em parceria com a CPT Rondônia ajudamos a convocar e organizar no dia 01 de Outubro de 2009 uma reunião em Costa Marques do Ministério Público Federal com representantes das comunidades quilombolas de Rondônia. Vejam uma crônica que apareceu no site Observatório Quilombola nestes dias. As fotografias são cedidas por Murilo de Souza.
"Seis comunidades quilombolas reuniram-se com procuradores da República e relataram suas dificuldades
Na última semana, representantes do Ministério Público Federal (MPF) em Rondônia fizeram reunião com as comunidades quilombolas que moram nos municípios de Costa Marques, São Miguel do Guaporé, São Francisco do Guaporé e Pimenteiras do Oeste. A reunião ocorreu no salão paroquial da igreja matriz de Costa Marques. Os procuradores da República Daniel Fontenele e Lucyana M. Pepe Affonso de Luca ouviram dos quilombolas as dificuldades por que passam em suas comunidades. .
Eles vão acompanhar a destinação de recursos do governo federal e cobrar que as prefeituras e outros órgãos públicos atendam aos quilombolas e apresentem projetos em benefício das comunidades. Compareceram à reunião representantes das prefeituras de Costa Marques e São Francisco do Guaporé e da Secretaria Estadual de Assistência Social.
Todas as comunidades quilombolas enfrentam problemas em comum: falta de demarcação de suas áreas, dificuldade no acesso às cidades, precariedade no atendimento à educação e saúde, não fornecimento de energia elétrica (exceto Forte Príncipe e Pedras Negras), não fornecimento de água e saneamento básico e falta de desenvolvimento de projetos e atividades sustentáveis. Em Costa Marques existem duas comunidades quilombolas: Santa Fé, com 86 habitantes, e Forte Príncipe da Beira, que tem 314 moradores. A prefeitura de Costa Marques estava presente à reunião e afirmou que fará atendimento local nas próprias comunidades de Santa Fé e Forte Príncipe da Beira. O MPF irá fiscalizar a implantação deste atendimento. A prefeitura também informou que não há recursos no orçamento deste ano para atender o pedido de construção de uma escola na comunidade Santa Fé e que planeja implantar um sistema de ensino modular no local. O MPF pretende viabilizar um acordo com a Universidade de Rondônia e o Incra para que antropólogos realizem o levantamento necessário à demarcação daquele território quilombola.
Na comunidade de Forte Príncipe da Beira, os quilombolas sentem-se ameaçados pelo Exército. Reconhecidos pela Fundação Palmares como quilombolas, eles ainda não possuem assistência pública da prefeitura. Eles solicitaram apoio do MPF para solucionarem os problemas de relacionamento com o Exército e a falta de assistência por parte do poder público municipal.
Em São Francisco do Guaporé, existem as comunidades Santo Antônio do Guaporé (66 moradores) e Pedras Negras (97). A primeira tem “ambulancha” (lancha-ambulância), mas não tem o combustível para seu funcionamento. O posto de saúde é precário, mas há remédios básicos. Não tem agente de saúde. A escola está sem carteiras, sem paredes e é multisseriada. A prefeitura disse que pretende construir uma escola na localidade. Os quilombolas de Santo Antônio estão dentro da reserva biológica Guaporé e querem a demarcação das terras. Os quilombolas relataram que reportagens divulgadas sobre racismo e contaminação por HIV (Aids) prejudicaram a imagem dos moradores.
Na comunidade Pedras Negras, os moradores estão em uma reserva extrativista estadual e enfrentam problemas na área de demarcação de terras, saúde e educação, tendo um posto ainda em construção, uma escola antiga em madeira e dificuldades no acesso à cidade.
A comunidade de Jesus (60 habitantes), em São Miguel do Guaporé, e a comunidade de Laranjeiras (6 famílias), em Pimenteiras DOeste, pediram intervenção do MPF para solucionar problemas em saúde e energia elétrica, além da necessidade de agilizar as demarcações de seus territórios."
Fonte: Na Hora Online em 09/10/2009
domingo, 27 de setembro de 2009
Chico Mendes deve estar removendo-se dentro do seu túmulo

Francisco Alves Mendes Filho, mais conhecido por Chico Mendes, deve estar se removendo dentro do seu túmulo, depois de ver o que em seu nome está fazendo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO). Este organismo criado no ano passado pelo Ministério de Meio Ambiente tem como missão a gestão das unidades de conservação federais.
Porém Chico Mendes defendeu a natureza pensando em seu povo, os seringueiros que sofriam as consequências da destruição da floresta. Enquanto que o ICMBIO está atacando duramente algumas comunidades tradicionais que durante séculos viveram em harmonia com a natureza.
Não estou me referindo a invasores de unidades de conservação, como a Flona de Bom Futuro. Finalmente lembraram que esta reserva federal existia, depois que ela fosse invadida e destruída a maior parte. O trabalho atual do Instituto Chico Mendes para tirar os invasores merece todo o meu respeito e possivelmente teria também a simpatia de Chico Mendes.
Estou me referindo à comunidade quilombola de Santo Antônio do Guaporé. O local desta comunidade foi incluída na Reserva Biológica do Guaporé, criada em 1982, acima do mesmo local onde a comunidade morava, trabalhava e ocupava fazia séculos. Para eles no começo prevaleceu o bom senso, deixando que a comunidade continuase permanecendo no mesmo local, até agora.
Porém o bom senso não parece estar guiando os atuais responsáveis do ICMBIO, que aqui e em outros lugares resistem a legalizar o direito constitucional das comunidades quilombolas e tradicionais a seus territórios. Numa reunião acontecida a finais de agosto, um diretor do ICMBIO de Brasília apresentou para a comunidade um termo de compromisso inaceitável. Este documento exigiria aos membros da comunidade pedir autorização para realizar qualquer actividade, seja agricultura, criação de animais, caça o pesca de subsistência, construção de casas e até para tirar palha para os telhados.
Em síntese, exigiria autorização para tudo, restringindo qualquer atividade dos moradores da comunidade. Até qualquer parente ou visitante que quiser ir na comunidade teria que tirar autorização no Ibama de Costa Marques. Até para rezar missa na capela da comunidade teria que tirar autorização.
Com esta proposta os responsáveis do ICMBIO perderam uma boa aoportunidade para abrir um diálogo frutífero com a comunidade, que durante décadas vem sofrendo esta agressão: A criação duma reserva biológica que não teve em conta os moradores que já existiam no lugar, e que acabou tornando o Ibama em invasor do território tradicional da comunidade quilombola. Precisamente porque eles tinham vivido durante séculos de forma sustentável, mantendo e cuidando a natureza, como continuam a o fazer até agora.
Já estaria na hora do ICMBIO começar a ver as comunidades tradicionais como seus possíveis aliados para conservar e guardar as reservas e unidades de conservação. Já está passando da hora de reparar a injsutiça histórica cometida na criação da reserva biológica e devolver o território que é deles para à comunidade, para uso e manejo sustentável no entorno da Reserva Biológica.
Neste sentido, os responsáveis brasileiros das unidades de conservação teriam que olhar para o exemplo de gerenciamento de seus vizinhos bolivianos, do AP-ANMI Iténez, que mantém áreas de manejo sustentável das comunidades junto com outras áreas de natureza intocada. Este modelo misto parece estar dando muito bons resultados.
Porém o Termo de Compromisso apresentado pelo Instituto Chico Mendes seria uma proposta ridícula e absurda, se não tivesse resultado extremamente humilhante para os moradores da comunidade quilombola: "Já não estamos mais no tempo da escravitude" reclamaram. Até que parece que os responsáveis do ICMBIO ainda não se deram conta.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
A natureza agradece

Logo que reduziram as queimadas, as chuvas aumentaram. Este periodo era o pior tempo do ano em Rondônia, quando as queimadas multiplicavam-se por todos lados
Calor asfixiante e fumaça convertiam o ambiente em irrespirable. O fogo se alastrava sem controle, queimando pastos, cafezais, árvores e a floresta reseca. Ninguém conseguia segurar o fogo.
Contra minhas próprias previsões, este é o segundo ano que a gente sentiu notável redução das queimadas em Rondônia. Deve ter sido resultado das intensas fiscalizações das autoridades e organismos públicos ambientais, aplicando rigurosas multas.
Não estou dizendo que ninguém tenha derrubado e queimado floresta: Tem pessoal teimando, sim. Porém, depois de tantos anos de pressão internacional por salvar a Amazônia, o governo do Brasil começou a aplicar alguma política efetiva de contenção da desflorestação.
O que tem sido incrível é que os resultados no meio ambiente tem chegado de forma imediata. Poucos anos atrás um comentarista de Porto Velho escrevia: calor intenso, ambiente asfixiante... Aquí o aquecimento global não é previsão científica, ele ja está acontecendo mesmo. Porém este ano as chuvas começaram mais cedo, chovendo bastante em agosto e aumentando em setembro.
Em alguns lugares está parecendo que já entramos na época das chuvas. As árvores da mata florescem por todas partes. Os agricultores alegres com os cafezais cheios de carga. Alguns já se animaram a plantar mais café: até pouco o fogo era uma ameça constante, impedindo culturas permanentes. Por todas partes os pastos estão verdes, as vacas gordas, de ubres cheias de leite. O nível do Rio Guaporé está alto para o tempo e parece que já não secará mais este ano.
Valeu o sacrifício de começar a parar de derrubar e queimar a mata. A luta do mundo pela Amazônia começa a dar resultados. E o ambiente está respondendo com generosidade, com chuvas abundantes. A natureza agradece.
domingo, 30 de agosto de 2009
A malária aumenta com as Hidreléctricas do Rio Madeira
"A construção da Usina Hidrelétrica de Jirau, no Rio Madeira (RO), fez com que o número de casos de malária no distrito de Jaci-Paraná aumentasse 63,6%".
Afirma Sabrina Craide, repórter da Agência Brasil. Ela cita como fonte os registros do Departamento de Vigilância Epidemiológica e Ambiental de Porto Velho: De janeiro a julho de 2008 foram registrados 931 casos de malária na localidade e, no mesmo período deste ano, o número subiu para 1.524.
Para a diretora do departamento, Rute Bessa, os números podem ser explicados pelo aumento da população do distrito, que praticamente triplicou desde o início das obras da hidrelétrica. “As pessoas que trabalham na Hidrelétrica de Santo Antônio [também no Rio Madeira], devido à proximidade, moram na cidade. Em Jaci Paraná, os trabalhadores da hidrelétrica de Jirau ficam num alojamento no local das obras, então acabou aumentando muito a população do distrito”, explicou. Jaci-Paraná fica a cerca de 80 quilômetros de Porto Velho.
Apesar que a Energia Sustentável do Brasil, concessionária responsável pela Usina de Jirau, afirma realizar esforços para que não apareça um surto de malária na região, os dados confirmam um dos temores existentes desde os primeiros debates sobre as Hidroeléctricas do Río Madeira: A possibilidade que se repita a epidemia que houve durante a construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, a inícios do século XX.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Alimentação sadia e abundante

Na faltou alimentação saudável e abundante produzida pelos próprios agricultores na região da BR 429, em Costa Marques, freqüentando a quarta assembléia geral do projeto Natureza Viva do Vale do Guaporé.
Exceto o peixe no domingo, comprado aos pescadores Guaporé, todos os alimentos e bebidas nos dias do encontro foram alimentos orgânicos, produzidos sem a utilização de pesticidas, após recuperação de terras e técnicas para cuidar do meio ambiente.
Para se encontrar, os participantes percorreram até 220 quilômetros de estrada empoeirada. Porém uma vez iniciado o encontro, junto aos técnicos que lhes orientaram con métodos ecológicos, cada familia apresentava com orgulho uma mostra dos frutos e produtos orgânicos de suas árvores, hortas, pastos e galhineiros, que depois lhes serviram de base para a comida da reunião.
Na troca de experiências realizadas por cada agricultor em sua terra, não faltaram relatos de fracassos, como a família que plantou maracujá, e viu todas as plantas morrerem sem alcançar métodos naturais combater a causa da doença. Também dos fracassos a gente deve tirar aprendizagem.
Mais sucesso e felicidade tiveram aqueles que viram revitalizar seu café e produzir grãos de melhor qualidade, depois que eles pararam de utilizar herbicidas, colocaram adubação verde e utilizaram sombreamento nas prantas. Uma cooperativa, Coacaram, comercializa os seus produtos com preços significativamente melhores.
Outro momento importante foi a troca de sementes selecionadas: O Urucum, corante natural cada vez mais valorizado economicamente, ou as sementes que algumas famílias tinham guardado desde o tempo de seus avós, assim como os diferentes ramos de mandioca esquecidos, e algumas sementes de hortaliças, plantas caipira e espécies quase desconhecidas, como o camu-camu, um suco de frutas vermelhas com elevada concentração de vitamina C.
O sábado à tarde fomos visitar o principal monumento histórico da região: O Forte Príncipe da Beira. E também a Lagoa Azul, a pequena propriedade de Seu Bernardo, um pioneiro da ecologia, que em bem pouca terra conseguiu plantar milhares de árvores e imensa variedade de espécies vegetais. Com habilidade com a sua esposa fabricam mobiliário artesanal com produtos extraídos da floresta e conseguindo viver com dignidade. "Antes me chamavam de doido, quando eu subia nas árvores para recolher sementes. Hoje não o faço mais sozinho, me acompanham estes jovens que estão estudando na Escola Família Agrícola e envolvidos no projeto Natureza Viva" dizia com orgulho de mestre auto-didata.
A Assembleia reafirmou a minha esperança na agricultura familiar e ecológica, como a melhor alternativa para este mundo mergulhado na crise alimentar, devido à especulação e consumo excessivo.
Nestes dias, quase de férias, este grupo de 24 famílias (mais algumas outras famílias interessados em conhecer o seu trabalho) foi realizada a preparação para o quarto ano deste projecto de agroecologia, que financia um Comité de Ajuda ao Desenvolvimento da Conferência Episcopal Italiana.